Brasil
Moraes tenta barrar investigação do Banco Master e acusa Mendonça de perseguição política
Em manifestação de 44 páginas, ministro nega diálogos com Daniel Vorcaro, questiona relatório da PF e pede ao STF o reconhecimento da nulidade do procedimento

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), apresentou nesta terça-feira (15) uma manifestação de 44 páginas na tentativa de barrar o avanço da investigação que reúne informações relacionadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
No documento, apresentado poucas horas antes da análise do caso pelo Supremo, Moraes rejeita as suspeitas levantadas contra ele, nega ter mantido conversas com Vorcaro e questiona a forma como elementos obtidos durante a apuração foram interpretados. O ministro também direciona fortes críticas ao colega André Mendonça, a quem atribui uma suposta motivação político-eleitoral na condução do procedimento.
Moraes pede que o STF reconheça a nulidade da investigação e sustenta que o material reunido não apresenta indícios suficientes de crime.
Ao defender sua tese, o ministro afirma que haveria uma tentativa de “vingança” por parte de aliados de pessoas condenadas pelo Supremo em processos relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023.
Moraes nega qualquer diálogo com Vorcaro
Um dos principais pontos da defesa é a negativa de que Moraes tenha trocado mensagens com Daniel Vorcaro.
A Polícia Federal encontrou, no celular do ex-banqueiro, anotações e registros que passaram a ser analisados em conjunto com outras informações obtidas durante a investigação. A defesa de Moraes contesta a interpretação desses dados e afirma que eles não comprovam a existência de conversas entre o ministro e Vorcaro.
Segundo os argumentos apresentados por Moraes, foram analisadas 52 anotações localizadas no bloco de notas do aparelho. Deste total, 47 não teriam correspondência com mensagens encontradas no WhatsApp. Nas outras cinco situações, haveria coincidência entre o horário em que a anotação foi produzida e o envio de mensagens.
Para o ministro, entretanto, coincidência de horários não seria suficiente para demonstrar que os registros correspondiam a conversas mantidas com ele.
Em sua manifestação, Moraes chama as supostas conversas de “diálogos fantasiosos” e afirma que as mensagens atribuídas a ele “nunca existiram”.
A questão dos registros do celular está entre os pontos que o STF deverá considerar ao avaliar a continuidade ou não da apuração.
Defesa questiona relatório produzido pela PF
Moraes também contesta o relatório elaborado pela Polícia Federal que reúne elementos relacionados ao caso.
Um dos argumentos apresentados está relacionado aos metadados do arquivo. Segundo o ministro, essas informações indicariam que o relatório teria sido aberto e finalizado no mesmo dia.
A partir disso, Moraes levanta a hipótese de que o documento possa ter sido produzido com auxílio externo à Polícia Federal.
Em um dos trechos da manifestação, o ministro afirma que teria ocorrido uma quebra da cadeia de custódia e menciona a possibilidade de participação de um “órgão externo, provavelmente órgão estrangeiro”.
É importante destacar que essa afirmação aparece como uma hipótese apresentada por Moraes. Nos trechos divulgados da manifestação, não há identificação do suposto órgão estrangeiro nem demonstração pública de que uma instituição de outro país tenha participado da elaboração do relatório.
O ministro também menciona uma suposta interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2026.
Mendonça vira principal alvo da defesa
André Mendonça ocupa espaço central na manifestação apresentada por Moraes.
Ao longo do documento, o ministro acusa o colega de adotar medidas que, segundo sua interpretação, teriam como objetivo atingir sua imagem e sua atuação.
Moraes utiliza diversas vezes a expressão “ilegal” para classificar atos atribuídos a Mendonça e sustenta que o procedimento teria sido conduzido dentro de uma estratégia de caráter político-eleitoral.
O ministro também afirma que pretende pedir ao presidente do STF, Edson Fachin, a intimação de pessoas que teriam participado de reuniões nas quais, segundo sua versão, Mendonça teria pressionado integrantes da Polícia Federal para adotar medidas contra ele.
A acusação, entretanto, é contestada por Mendonça.
Ao justificar uma determinação feita à Polícia Federal, Mendonça afirmou que não havia ordenado a criação de uma investigação inteiramente nova em 72 horas, mas a atualização de apurações que já estavam em andamento desde fevereiro.
O ministro também explicou que entregou pessoalmente e sem assinatura uma decisão aos delegados porque o documento envolvia autoridades como o diretor-geral da PF e o procurador-geral da República.
Valores milionários e contratos entram na discussão
A relação entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, ligado à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, também aparece na manifestação.
Moraes nega a existência de um segundo contrato entre o escritório e uma empresa ligada a Vorcaro. A Polícia Federal, porém, afirma ter identificado uma segunda contratação envolvendo a Viking Participações, associada ao ex-banqueiro, com valor de até R$ 50 milhões.
O primeiro contrato citado no caso tinha valor de R$ 131 milhões. Documentos da Receita Federal apontaram pagamentos de R$ 80,2 milhões ao escritório ao longo de dois anos.
O escritório de Viviane Barci de Moraes já havia confirmado que Alexandre de Moraes participou de alterações no texto contratual antes da assinatura. Segundo a banca, a participação ocorreu porque ele é marido de uma das sócias e teve como finalidade verificar possíveis impedimentos legais.
Moraes afirma que nunca julgou processo envolvendo o Banco Master ou Daniel Vorcaro durante ou depois da vigência do contrato.
A existência e a interpretação desses contratos estão entre os pontos que integram o debate sobre o caso.
Cartões para os filhos também são citados
A defesa também aborda informações relacionadas aos dois filhos de Moraes, ambos advogados.
O ministro confirma que eles receberam ofertas de cartões de crédito do Banco Master, mas afirma que os cartões não chegaram a ser utilizados.
A informação é apresentada no documento como mais um elemento a ser contextualizado diante das suspeitas levantadas durante a investigação.
Prisão de Vorcaro é usada para contestar possível vazamento
Outro argumento utilizado por Moraes envolve a prisão de Daniel Vorcaro, ocorrida em novembro de 2025.
O ex-banqueiro foi detido quando se preparava para embarcar no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Na ocasião, segundo a argumentação apresentada pelo ministro, Vorcaro estava com o próprio passaporte e o celular que posteriormente seria apreendido.
Para Moraes, essas circunstâncias seriam incompatíveis com a hipótese de que Vorcaro soubesse antecipadamente que seria preso.
O argumento é utilizado para questionar suspeitas relacionadas a um possível vazamento de informações da operação.
Investigação também envolve atuação da Polícia Federal
A manifestação de Moraes não se limita às acusações contra Mendonça. O ministro também questiona procedimentos adotados pela Polícia Federal e a forma como os dados foram reunidos e interpretados.
Segundo a defesa, milhares de documentos relacionados aos procedimentos da chamada Operação Compliance Zero foram analisados. Moraes afirma que, dentro desse conjunto, não haveria registros que comprovassem contato dele com autoridades responsáveis pela operação que resultou na prisão de Vorcaro.
A tese apresentada ao STF é de que os elementos reunidos não seriam suficientes para sustentar a continuidade da investigação contra o ministro.
STF analisa dois procedimentos diferentes
A discussão está dividida em dois procedimentos.
A PET nº 16.662 reúne informações relacionadas diretamente a Alexandre de Moraes. Já a PET nº 16.704 foi aberta de ofício por Edson Fachin para esclarecer a atuação das autoridades envolvidas no episódio, incluindo Moraes e Mendonça.
Moraes havia solicitado que os dois casos fossem analisados conjuntamente. Fachin rejeitou o pedido, sob o argumento de que a PET nº 16.704 ainda estava em fase de instrução preliminar.
Na nova manifestação, Moraes defende a posição da Procuradoria-Geral da República pela nulidade da investigação e pelo encerramento da PET nº 16.662.
Moraes relaciona caso ao 8 de janeiro
Na parte final da defesa, o ministro volta a relacionar o episódio às investigações e condenações decorrentes dos atos de 8 de janeiro de 2023.
Moraes afirma que a tentativa de “golpe” não teria terminado naquela data, mas apenas mudado de estratégia.
O argumento reforça a interpretação política apresentada pelo ministro sobre a investigação e sua relação com grupos que, segundo ele, teriam interesse em atingir o Supremo.
O que está em disputa
A manifestação de Alexandre de Moraes coloca diretamente em confronto duas versões sobre a investigação.
De um lado, o ministro sustenta que não manteve diálogos com Daniel Vorcaro, questiona a interpretação dos dados encontrados no celular do ex-banqueiro, contesta o relatório da Polícia Federal e acusa André Mendonça de conduzir o procedimento com motivação político-eleitoral.
Do outro, elementos reunidos pela investigação e interpretações apresentadas pela Polícia Federal são utilizados para justificar a necessidade de apuração, incluindo informações relacionadas a contratos e registros encontrados no aparelho de Vorcaro.
As acusações feitas por Moraes contra Mendonça também são contestadas pelo ministro.
Agora, cabe ao Supremo Tribunal Federal avaliar os argumentos apresentados e decidir se a investigação deve prosseguir ou se o procedimento questionado pelo ministro deverá ser considerado nulo.
Até uma decisão do STF, as acusações, suspeitas e hipóteses apresentadas pelas partes permanecem sob análise e não devem ser tratadas como fatos definitivamente comprovados.
Fonte: Revista Oeste
