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Repressão a protestos no Irã pode ter deixado dezenas de milhares de mortos, apontam organizações
Inflação, falta de alimentos e medidas econômicas do governo desencadearam manifestações em escala nacional

Os recentes protestos no Irã podem ter resultado em um número de mortes muito superior ao admitido oficialmente pelo governo, segundo relatos de organizações de direitos humanos e informações enviadas à Organização das Nações Unidas (ONU). Estimativas independentes falam em dezenas de milhares de vítimas desde o início das manifestações.
Um levantamento do Centro Internacional para Direitos Humanos no Irã calcula que ao menos 43 mil pessoas morreram nos confrontos. A entidade afirma ter chegado a esse número por meio de pesquisas de campo, análise de imagens e vídeos e entrevistas com fontes dentro do território iraniano.
Já denúncias encaminhadas à ONU indicam que a repressão pode ter sido ainda mais letal. De acordo com a relatora especial para direitos humanos no Irã, Mai Sato, os relatos recebidos apontam para um total entre 60 mil e 80 mil mortes. Em entrevista à ABC News, ela afirmou ter visto vídeos que mostram agentes de segurança atirando contra civis desarmados. Sua equipe investiga se houve crimes contra a humanidade e se o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, pode ser responsabilizado pelas violações.
O governo iraniano, por sua vez, reconhece a morte de cerca de 5 mil civis, número muito inferior ao apresentado por entidades independentes.
Origem da crise
A onda de protestos começou em 28 de dezembro de 2025, quando comerciantes de Teerã fecharam suas lojas em reação à inflação elevada. O movimento se espalhou rapidamente para outras cidades e passou a envolver diferentes setores da sociedade.
O estopim foi o aumento repentino nos preços de produtos básicos, como óleo de cozinha e frango, além do desaparecimento desses itens do mercado. A situação se agravou após o banco central encerrar um programa que permitia a importadores selecionados comprar dólares a um valor subsidiado. Com isso, lojistas elevaram preços e muitos optaram por suspender as atividades.
A adesão dos chamados bazaaris — tradicionalmente vistos como um grupo mais alinhado ao regime — chamou atenção e deu força às manifestações.
Repressão e denúncias
Moradores relataram que a resposta das forças de segurança foi severa. Segundo comunicado do Centro Internacional para Direitos Humanos no Irã, mesmo após a dispersão dos atos, agentes teriam continuado a perseguir manifestantes e a disparar contra civis, inclusive dentro de residências.
Na tentativa de conter o descontentamento, o governo anunciou transferências diretas de cerca de US$ 7 por mês à população, mas a medida não conseguiu frear os protestos.
As manifestações atuais são consideradas as maiores desde 2022, quando a morte de Mahsa Amini, de 22 anos, sob custódia policial, desencadeou uma onda de protestos em todo o país. Nas últimas duas semanas, mais de cem cidades registraram atos, segundo os relatos mencionados pelas organizações.
