Economia
Trump amplia importação de carne para conter preços
Medida busca aumentar a oferta e reduzir o custo da carne bovina para os consumidores, mas entidades do setor alertam para impactos sobre a recuperação dos rebanhos norte-americanos

Donald Trump decidiu agir sobre um dos pontos mais sensíveis da inflação nos Estados Unidos: o preço da carne bovina. O presidente assinou, na quarta-feira (26), uma proclamação que amplia temporariamente a entrada de aparas magras de carne bovina no país com a tarifa reduzida prevista dentro da cota de importação.
Segundo o governo norte-americano, a iniciativa tem como objetivo aumentar a oferta e contribuir para a redução do preço da carne moída para os consumidores.
No texto da proclamação, Trump destacou a importância dos pecuaristas para a produção de alimentos nos Estados Unidos, mas afirmou que os preços da carne bovina aumentaram de forma excessiva para os consumidores americanos.
A medida acrescentará 300 mil toneladas métricas à quantidade de carne que poderá entrar no país dentro da cota tarifária. A autorização começa em 1º de setembro e terá duração de 90 dias.
O volume será dividido em três parcelas de 100 mil toneladas, distribuídas entre setembro, outubro e o período entre o fim de outubro e novembro, até que o limite autorizado seja atingido.
Medida provoca reação do setor pecuário
A decisão, porém, abriu uma nova frente de pressão sobre Trump. Ao mesmo tempo em que busca reduzir os preços para os consumidores, a iniciativa é criticada por parte do setor pecuário norte-americano, tradicionalmente próximo ao presidente.
A American Farm Bureau Federation, uma das principais organizações agrícolas dos Estados Unidos, manifestou oposição à medida. O presidente da entidade, Zippy Duvall, afirmou que a ampliação das importações pode prejudicar a recuperação do setor pecuário e defendeu a revisão da decisão.
Segundo a organização, a entrada de grandes volumes de carne estrangeira no mercado pode reduzir os incentivos para que os produtores ampliem seus rebanhos.
A pressão aumentou nesta quinta-feira (27), quando a Livestock Marketing Association, a National Cattlemen’s Beef Association e a United States Cattlemen’s Association se uniram à Farm Bureau Federation.
Em carta enviada ao presidente, as quatro entidades pediram a reversão da medida e alertaram que uma solução de curto prazo para os preços pode comprometer a capacidade de recuperação da pecuária norte-americana.
Rebanho dos EUA está no menor nível em décadas
O problema enfrentado pelo governo é resultado de uma redução significativa na disponibilidade de gado nos Estados Unidos.
O rebanho bovino norte-americano atingiu o menor nível em 75 anos. Entre os fatores apontados estão a seca, os incêndios, o aumento dos custos de produção e as restrições impostas à entrada de animais vivos provenientes do México.
A Casa Branca afirma que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos prevê uma queda de aproximadamente 4% na produção de carne bovina em 2026, na comparação com 2025.
Outro fator que afetou o mercado foi a preocupação sanitária envolvendo a entrada de gado mexicano. Trump havia restringido a importação de animais vivos devido ao risco de disseminação da mosca-do-berne do Novo Mundo, conhecida nos Estados Unidos como New World screwworm, uma praga capaz de provocar infestações graves em animais.
Nesta semana, porém, os Estados Unidos começaram a reabrir gradualmente alguns pontos de entrada para o gado mexicano.
Importações já haviam sido ampliadas
A nova decisão não é a primeira medida adotada pelo governo Trump para ampliar a oferta de carne.
Em fevereiro, o presidente já havia aumentado em 80 mil toneladas a cota de importação de aparas magras de carne bovina provenientes da Argentina. Na ocasião, o governo justificou a decisão pela necessidade de ampliar a disponibilidade de matéria-prima utilizada na produção de carne moída.
A nova medida mantém a autorização anterior e acrescenta outras 300 mil toneladas destinadas a outros países ou áreas elegíveis.
O governo norte-americano também estabeleceu mecanismos de monitoramento para as novas importações. A referência adotada é que a carne adicional seja comercializada a um preço 25% inferior ao valor de mercado das aparas magras.
Caso o desconto não seja verificado, o governo poderá interromper a entrada do restante do volume adicional autorizado.
Consumidores e produtores no centro da disputa
A estratégia de Trump busca conciliar dois objetivos: aliviar a pressão sobre os consumidores no curto prazo e permitir que a pecuária norte-americana recupere sua capacidade produtiva nos próximos anos.
Para as entidades do setor, entretanto, o aumento da oferta estrangeira pode pressionar os preços recebidos pelos produtores americanos justamente no momento em que seria necessário incentivar investimentos para a expansão dos rebanhos.
Há ainda outro ponto que preocupa os pecuaristas. Segundo a American Farm Bureau Federation, cerca de 70% dos bezerros nascidos na primavera são vendidos entre setembro e novembro, período que coincide com a vigência da nova cota de importação.
A avaliação das entidades é que a entrada de carne estrangeira mais barata nesse intervalo pode pressionar ainda mais os preços recebidos pelos produtores.
O embate evidencia o desafio do governo Trump: reduzir os preços para os consumidores sem enfraquecer um setor estratégico da economia americana. O resultado dependerá, em grande parte, da velocidade com que os pecuaristas conseguirão reconstruir seus rebanhos e recuperar a produção doméstica.