ELEIÇÕES 2026
Flávio adota discurso mais moderado na Globo e leva propostas ao último debate com Lula
A dois dias do segundo turno, senador priorizou economia, segurança pública e infraestrutura; pesquisa Datafolha mostra disputa tecnicamente empatada para a Presidência.

A dois dias da decisão presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) adotou uma postura mais moderada no último debate com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado na noite de sexta-feira (23), pela TV Globo. Diferentemente do confronto anterior, na Band, o candidato do PL procurou concentrar suas intervenções em propostas para o país, com destaque para economia, segurança pública e infraestrutura.
A mudança de comportamento ocorreu em um momento de forte equilíbrio eleitoral. O Datafolha divulgado em 23 de outubro apontou 47% das intenções de voto para Flávio e 46% para Lula, resultado que mantém os dois candidatos em empate técnico dentro da margem de erro.
A estratégia também buscou alcançar eleitores que ainda poderiam reconsiderar suas escolhas, especialmente aqueles que votaram em outros candidatos no primeiro turno.
Mudança de postura após o confronto na Band
A preparação para o encontro da Globo teve como objetivo reduzir as provocações e ampliar o espaço destinado às propostas. A avaliação interna da campanha identificou que, no debate anterior, Flávio havia dedicado tempo considerável aos embates pessoais, deixando de explorar alguns assuntos considerados importantes por seus aliados.
Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, a orientação nos bastidores era adotar uma postura mais técnica e menos agressiva. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), participou da preparação do senador.
Flávio também reservou os dias anteriores ao confronto para estudar temas econômicos, regionais e de segurança pública.
A mudança foi perceptível na apresentação do candidato, embora o debate não tenha ficado livre de provocações. Nos primeiros blocos, os dois presidenciáveis conseguiram dedicar mais espaço às propostas. No encerramento, entretanto, voltaram a trocar acusações pessoais.
Obras paralisadas e infraestrutura entram na discussão
Um dos primeiros assuntos levantados por Flávio foi a situação das obras públicas no Brasil. O senador cobrou explicações de Lula sobre os empreendimentos paralisados e mencionou levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) que aponta mais de 11,5 mil projetos nessa condição.
O questionamento colocou em discussão a capacidade de execução do governo federal e a necessidade de concluir investimentos já iniciados antes de ampliar novos compromissos.
Lula respondeu que recebeu aproximadamente 6 mil obras paradas ao assumir a Presidência, em 2023, e apresentou números do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que, segundo ele, prevê R$ 1,7 trilhão em investimentos, com quase R$ 800 bilhões já executados.
Na réplica, Flávio apresentou compromissos para a infraestrutura nacional. Entre eles, prometeu concluir a Ferrovia Transnordestina, ampliar a malha ferroviária, expandir concessões de rodovias e portos e garantir pedágio gratuito para motociclistas nas novas concessões rodoviárias.
O candidato também defendeu a ampliação do acesso à internet, inclusive em comunidades indígenas.
Lula contestou parte das cobranças e afirmou que projetos mencionados pelo adversário já estão em andamento. Citou a Transnordestina, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico) e a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho.
Custo de vida e salário mínimo dividem candidatos
A situação financeira das famílias também ganhou espaço no confronto. Flávio voltou a criticar o custo dos alimentos, os juros e o endividamento dos brasileiros, argumentando que os reajustes salariais, isoladamente, não resolvem as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.
Durante uma das intervenções, o senador provocou o presidente ao questionar a capacidade de o salário durar até o fim do mês.
“Hoje é dia 23 de outubro, o mês ainda não acabou”, afirmou Flávio. “O seu salário já acabou?”
Lula, por sua vez, defendeu a política de valorização do salário mínimo acima da inflação adotada em seus governos e questionou se o adversário manteria esse mecanismo.
O transporte público também entrou na discussão. Flávio declarou apoio à tarifa zero nos ônibus durante os fins de semana, proposta apresentada por Lula.
Nordeste vira campo de disputa eleitoral
A discussão sobre o Nordeste ganhou destaque quando Lula questionou a relação de Flávio com a região e afirmou ter a impressão de que o senador não gostava dos nordestinos.
O candidato do PL rejeitou a insinuação e prometeu trabalhar com os governadores dos nove Estados nordestinos, independentemente de suas posições partidárias.
Flávio citou a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), como exemplo de possível parceria administrativa. Também apresentou a proposta de construir uma ferrovia entre Salvador, na Bahia, e São Luís, no Maranhão, com a intenção de estimular o turismo e a atividade econômica.
Outro ponto de divergência foi a transposição do Rio São Francisco. Lula destacou a obra entre as realizações dos governos petistas. Flávio contestou os atrasos e atribuiu à administração de Jair Bolsonaro a conclusão de etapas do empreendimento, cuja execução atravessou diferentes governos.
Na segurança pública, o senador criticou a atuação do governo federal e de administrações estaduais alinhadas ao PT diante do avanço do crime organizado no Nordeste. Lula respondeu destacando investimentos realizados na região.
A importância eleitoral desse debate é demonstrada pelos números do Datafolha: Lula tinha 65% das intenções de voto no Nordeste, contra 30% de Flávio. Entre os evangélicos, o cenário era inverso, com 69% para o senador e 26% para o presidente.
Propostas para o Norte incluem Zona Franca e saneamento
A região Norte também apareceu entre os assuntos do confronto, com propostas direcionadas à infraestrutura e ao desenvolvimento econômico.
Flávio defendeu ampliar a Zona Franca de Manaus, investir em centros de processamento de dados (data centers) no Amazonas e desenvolver um programa de saneamento básico para Belém, no Pará.
As propostas colocam temas importantes para a região amazônica na discussão presidencial, especialmente a geração de investimentos, a infraestrutura e a preservação de atividades econômicas estratégicas.
Para o Amazonas, a ampliação da Zona Franca e a atração de empreendimentos tecnológicos são assuntos de interesse direto do setor produtivo e dos trabalhadores.
Último bloco termina com novas acusações
Apesar da tentativa de apresentar um debate mais concentrado em propostas, o encerramento voltou a ser marcado por confrontos pessoais.
O último bloco, destinado a temas livres, abriu espaço para questionamentos sobre o Banco Master, Daniel Vorcaro, assuntos relacionados à família do presidente e controvérsias envolvendo pessoas próximas aos candidatos.
O episódio demonstrou que a mudança de estratégia não eliminou os pontos de atrito entre as campanhas. Ainda assim, a discussão sobre propostas teve espaço maior nos primeiros momentos do programa.
Datafolha mostra disputa apertada a dois dias da votação
A pesquisa Datafolha divulgada em 23 de outubro confirmou o cenário de equilíbrio na reta final da eleição.
Flávio Bolsonaro apareceu com 47% das intenções de voto, enquanto Lula registrou 46%. Brancos e nulos somaram 5%, e 2% dos entrevistados disseram estar indecisos.
No cálculo dos votos válidos, os dois candidatos ficaram praticamente empatados, com 50% cada, considerando os números arredondados divulgados pelo instituto.
O levantamento ouviu 2.520 eleitores em 154 municípios, entre os dias 20 e 22 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O registro no TSE é BR-09709/2026.
Outro dado relevante é que 94% dos entrevistados afirmaram estar totalmente decididos sobre o voto. Entre os eleitores de Lula, o índice chegou a 96%; entre os apoiadores de Flávio, a 95%.
A expectativa de vitória também favorecia numericamente o senador: 53% dos entrevistados acreditavam que Flávio venceria, enquanto 39% apontavam Lula como provável vencedor.
Eleição será definida neste domingo
O último debate televisivo terminou sem alterar oficialmente o cenário de empate técnico apresentado pelas pesquisas. A disputa agora entra em sua etapa decisiva, com as campanhas concentradas na mobilização dos eleitores.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Como nenhum dos dois atingiu a maioria absoluta, a decisão foi encaminhada para o segundo turno.
Os brasileiros voltam às urnas neste domingo (25), das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, para escolher o próximo presidente da República.
O resultado dependerá da decisão dos eleitores e da participação nas urnas, em uma das disputas mais acirradas do processo eleitoral de 2026.
