Brasil
Mulheres negras concentram maioria das vítimas de feminicídio e violência letal no Brasil, aponta levantamento
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que mulheres negras representam 65% dos feminicídios registrados em 2025 e quase 75% das mortes violentas intencionais de mulheres no país.

As mulheres negras seguem como as principais vítimas da violência letal de gênero no Brasil. Dados divulgados na última semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que, embora representem 56% da população feminina do país, elas responderam por 65% dos casos de feminicídio registrados em 2025 e por 74,6% das mortes violentas intencionais de mulheres.
O levantamento também aponta uma redução nos homicídios de mulheres em geral. Em contrapartida, os feminicídios — crimes motivados pela condição de gênero da vítima — continuaram em alta no país.
Interseccionalidade no debate
Para os pesquisadores do FBSP, os dados reforçam a necessidade de considerar a interseccionalidade na elaboração de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
Segundo o Fórum, fatores como raça, gênero e classe social se sobrepõem e influenciam diretamente a exposição de mulheres negras à violência.
O conceito de interseccionalidade foi formulado em 1989 pela jurista norte-americana Kimberlé Crenshaw para explicar como diferentes formas de discriminação e desigualdade podem atuar simultaneamente sobre uma mesma pessoa.
Histórico da luta
A discussão sobre a realidade das mulheres negras, no entanto, antecede a criação do conceito. Em 1851, a abolicionista Sojourner Truth questionou a exclusão das mulheres negras das ideias de proteção e fragilidade atribuídas às mulheres brancas ao fazer o discurso marcado pela pergunta “Ain’t I a Woman?” (“E eu não sou uma mulher?”).
Mais de um século depois, em 25 de julho de 1992, cerca de 300 representantes de 32 países participaram, em Santo Domingo, na República Dominicana, do 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. O evento denunciou a sobreposição entre machismo, racismo e desigualdade social na vida das mulheres negras.
A data passou a ser reconhecida internacionalmente e foi oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
Debate na Flip
Durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada no último sábado (25), a filósofa e ativista Angela Davis voltou a abordar a valorização das mulheres negras ao comentar seu novo projeto literário, desenvolvido em parceria com Gina, sobre a pianista de jazz Geri Allen (1957–2017).
Na ocasião, Davis destacou que muitos pianistas da nova geração foram influenciados por Geri Allen, embora seu trabalho ainda seja pouco reconhecido pelo grande público.
Ao longo da programação da Flip, mulheres negras também compartilharam experiências sobre os impactos do racismo em áreas como política, segurança pública, maternidade e direitos reprodutivos.
Entre os relatos, mães afirmaram desejar mais oportunidades para as filhas, que sonham em seguir carreiras como policiais e jogadoras de futebol. Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, participantes avaliaram que a igualdade ainda está distante de ser alcançada.
A ativista Sandra Maria Silva, de 81 anos, resumiu esse sentimento ao afirmar: “Nasci lutando e vou morrer lutando.”
Legado de Lélia Gonzalez
Entre os principais nomes do feminismo negro brasileiro está a antropóloga Lélia Gonzalez, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado.
Reconhecida por integrar as discussões sobre raça e gênero em uma mesma perspectiva, Lélia formulou conceitos como “amefricanidade” e “pretuguês”, utilizados para analisar as relações sociais e culturais da população negra na América Latina.
A intelectual também questionou o mito da democracia racial no Brasil e desenvolveu reflexões sobre a posição da mulher negra em uma sociedade marcada pelo patriarcado e pelo legado colonial. Parte de sua produção foi reunida no livro Por um Feminismo Afro-Latino-Americano, publicado postumamente em 2020.
Em 2019, durante uma entrevista coletiva em São Paulo, Angela Davis reconheceu publicamente a influência de Lélia Gonzalez e afirmou que aprendia mais com a intelectual brasileira do que o público brasileiro poderia aprender com ela.