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Torre de inteligência em cidade mexicana na fronteira com os EUA amplia disputa sobre cooperação contra cartéis
Projeto em Ciudad Juárez reúne forças de segurança e estrutura para compartilhamento de dados, mas aproximação com Washington enfrenta resistência do governo federal mexicano

Uma nova estrutura de inteligência em Ciudad Juárez, no estado mexicano de Chihuahua, está no centro da disputa política sobre como o México deve combater o narcotráfico e cooperar com os Estados Unidos. A Torre Centinela foi projetada para concentrar equipes da polícia estadual, integrar informações e ampliar a capacidade de resposta das autoridades diante da atuação de organizações criminosas na região de fronteira.
O edifício terá, no 18º andar, um centro destinado à integração de dados e uma sala de situação. A proposta é permitir que diferentes órgãos de segurança trabalhem de forma coordenada e, mediante autorização, compartilhem informações com representantes de outros países.
A governadora de Chihuahua, Maru Campos, do Partido Ação Nacional (PAN), tem defendido uma aproximação maior com Washington. O governo estadual considera a cooperação internacional uma ferramenta importante para enfrentar grupos criminosos que utilizam o território mexicano como rota para o tráfico de drogas destinado aos Estados Unidos.
Cooperação com Washington gera divergência
A posição de Chihuahua, porém, entra em choque com a orientação do governo federal mexicano. A presidente Claudia Sheinbaum mantém uma postura mais cautelosa em relação à atuação direta de agentes estrangeiros no país, especialmente em operações de segurança.
O chefe da segurança estadual de Chihuahua, Gilberto Loya, argumenta que a realidade da região exige uma relação mais próxima com os Estados Unidos.
A tentativa de ampliar essa cooperação ocorre em um momento de forte tensão entre os dois países. O governo do presidente americano Donald Trump elevou a pressão sobre o México em temas relacionados ao narcotráfico e passou a defender medidas mais duras contra os cartéis.
Trump também pressiona por uma participação maior dos Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado na América Latina. No México, entretanto, a possibilidade de presença operacional estrangeira é alvo de resistência política e está ligada a um histórico de preocupação com a soberania nacional.
Torre pode receber agentes estrangeiros
Loya afirma que busca autorização do governo federal para que agentes de outros países possam atuar na estrutura de inteligência da Torre Centinela. Segundo ele, a intenção é facilitar o intercâmbio de informações em tempo real e ampliar a capacidade das autoridades mexicanas diante da dimensão internacional das organizações criminosas.
A proposta ganhou ainda mais peso após operações recentes contra grupos do narcotráfico e o aumento da cooperação de inteligência entre México e Estados Unidos.
O governo de Sheinbaum, contudo, acusa autoridades de Chihuahua de ultrapassar limites legais ao permitir a atuação de agentes estrangeiros sem autorização federal. A presidente também criticou o PAN por defender uma aproximação considerada excessiva com Washington.
Relação entre México e EUA se deteriora
A disputa estadual ocorre paralelamente a uma série de atritos entre os governos mexicano e americano. Entre as medidas adotadas por Washington estão classificações de cartéis como organizações terroristas, ameaças relacionadas a possíveis ações militares e pressões envolvendo a relação comercial entre os países.
Outro episódio citado nas tensões ocorreu em abril, quando a Justiça dos Estados Unidos apresentou acusações relacionadas ao narcotráfico contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, do Morena. O político nega as acusações, enquanto Sheinbaum rejeita a possibilidade de sua extradição.
Em setembro, os Estados Unidos também cancelaram o visto de um dos filhos do ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador. Sheinbaum classificou a medida como perseguição política, enquanto autoridades americanas afirmaram que decisões desse tipo estão relacionadas a questões de segurança nacional.
Enquanto a oposição mexicana critica a postura do governo federal, Sheinbaum sustenta que a atuação de agentes estrangeiros precisa respeitar as leis do país.
A discussão coloca Chihuahua no centro de um debate que ultrapassa a segurança pública estadual: de um lado, autoridades locais defendem maior integração com os Estados Unidos para combater organizações criminosas que atuam de maneira transnacional; de outro, o governo federal mexicano busca preservar o controle sobre operações realizadas em território nacional.
Para Loya, a dimensão internacional do narcotráfico exige uma resposta igualmente internacional. “Estamos lutando contra o mesmo inimigo”, afirmou o secretário de Segurança de Chihuahua ao defender a cooperação com outros países.
