Política
Ao negar ser bolsonarista, Plínio coloca em xeque sua força junto ao eleitor conservador

A poucos meses da eleição de outubro de 2026, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) decidiu assumir publicamente uma posição que pode custar caro na disputa pela reeleição. Em vez de reforçar qualquer identificação com o ex-presidente Jair Bolsonaro, principal liderança da direita brasileira, o parlamentar tem feito justamente o contrário: repete, entrevista após entrevista, que nunca foi bolsonarista e que sua vitória em 2018 não aconteceu graças à chamada “onda Bolsonaro”. A estratégia chama atenção porque coloca em xeque justamente o eleitorado que mais tende a definir uma eleição para o Senado no campo conservador.
As declarações não foram isoladas. Ao Amazonas Atual, Plínio afirmou: “Logo, eu não fui na onda do Bolsonaro. Mas eu recebi, sim, apoio de grupos bolsonaristas.” Em seguida reforçou: “Eu não sou bolsonarista, mas não falo mal do Bolsonaro.” O mesmo discurso foi repetido na TV Norte, quando declarou: “O que eu não posso é assumir uma coisa só para agradar.” Depois, no Papo Político Podcast, voltou ao assunto: “Quem foi que disse que eu sou bolsonarista de carteira assinada? (…) Eu sou o que é certo.” A insistência mostra que não se trata de uma frase tirada de contexto, mas de um posicionamento político cuidadosamente assumido.
Tiro no pé?
O problema é que eleições não são disputadas apenas com coerência de discurso, mas também com identidade política. E é justamente aí que Plínio pode enfrentar seu maior desafio. O eleitor bolsonarista costuma exigir lealdade pública ao ex-presidente, especialmente de candidatos que pretendem representar a direita. Ao rejeitar esse rótulo diversas vezes, o senador abre espaço para que adversários questionem sua ligação com o principal líder conservador do país. Em uma disputa onde a identificação ideológica pesa cada vez mais, qualquer sinal de distanciamento pode ser explorado politicamente.
O cenário eleitoral reforça esse risco. Com duas vagas em disputa para o Senado, na prática, Plínio passa a disputar um eleitorado que costuma valorizar o alinhamento público com Jair Bolsonaro. Ao repetir que não é bolsonarista, o senador corre o risco de reduzir sua identificação com uma parcela desse eleitorado, justamente quando a disputa pelo voto conservador promete ser uma das mais acirradas da eleição. Sua estratégia de se apresentar apenas como “de direita”, sem assumir o bolsonarismo, pode ampliar seu diálogo com eleitores moderados, mas também corre o risco de enfraquecer sua conexão com a base mais fiel do ex-presidente.
Ainda é cedo para medir o impacto eleitoral dessas declarações, mas uma conclusão já pode ser extraída do debate político: ao afirmar repetidamente que não é bolsonarista, Plínio Valério transformou um tema que poderia permanecer secundário em um dos principais pontos de discussão de sua pré-campanha. Se essa escolha representará independência política ou um desgaste junto ao eleitor conservador, será uma das questões centrais da corrida ao Senado em 2026. Em política, identidade costuma valer tanto quanto discurso, e abrir mão de um dos maiores símbolos da direita brasileira pode significar um cálculo estratégico ousado — ou um risco desnecessário.
Com informações do portal AM Post