Política
PF aponta genro do prefeito David Almeida em suposta negociação de compra de votos com pastores em Manaus
Laudo pericial identifica mensagens e áudios em celulares apreendidos que mencionam repasses de dinheiro e mobilização de pastores durante as eleições municipais de 2024

Um laudo da Polícia Federal (PF) indica que Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do prefeito de David Almeida, teria atuado como intermediário em uma suposta articulação para compra de apoio político de lideranças religiosas durante as eleições municipais de 2024 em Manaus.
A informação consta em uma perícia realizada em celulares apreendidos pela PF, no âmbito de uma investigação que apura possíveis práticas de corrupção eleitoral na capital amazonense. O exame técnico foi concluído em dezembro, mas só foi anexado ao inquérito nesta sexta-feira (13).
Os aparelhos analisados pertencem a líderes ligados à Igreja Pentecostal Unida do Brasil (IPUB). Ao todo, quatro celulares foram submetidos à perícia, que identificou trocas de mensagens, áudios e arquivos envolvendo lideranças religiosas e um contato salvo como “Gabriel Davi Almeida”, apontado pelos investigadores como sendo o genro do prefeito.
Pedido de R$ 80 mil
Em um dos celulares, atribuído ao pastor Flaviano Paes Negreiros, líder da igreja, a análise revelou conversas em um grupo de WhatsApp entre pastores e o contato associado a Gabriel.
Segundo a PF, as mensagens indicam discussões sobre valores financeiros e mobilização de apoio político.
Um dos trechos destacados no laudo mostra um pastor solicitando o envio de R$ 80 mil, que seriam posteriormente divididos entre as lideranças religiosas.
De acordo com a transcrição feita pela perícia, o religioso afirma em áudio:
“Se o senhor pudesse enviar todo aquele valor, os oitenta mil, para nós já dividir com todo mundo, para todo mundo se animar.”
Para os investigadores, o conteúdo sugere que o montante poderia ser utilizado para estimular apoio político entre pastores e obreiros.
Cobrança de valores prometidos
O relatório também aponta que o valor mencionado estaria relacionado ao apoio no segundo turno das eleições municipais de 2024. As mensagens indicam ainda que um pagamento anterior teria sido realizado durante o primeiro turno, embora o valor não tenha sido especificado.
Em outra gravação analisada pela PF, um pastor afirma que seria necessário procurar Gabriel para resolver o pagamento restante:
“Tem que ligar para o Gabriel para ver essa situação. Quem prometeu foi o Gabriel dar o restante do valor.”
Em outro momento, uma liderança pergunta se já teria chegado o “faz-me-rir”, expressão popular usada para se referir a dinheiro. O pastor Flaviano responde que o valor estaria “encravado”, e posteriormente cobra o repasse diretamente a Gabriel por mensagem.

Para os investigadores, esses registros reforçam a suspeita de negociação financeira vinculada a apoio eleitoral.
Pedido para divulgar número do candidato
Outro áudio recuperado pela perícia indica que Gabriel teria solicitado a colaboração de pastores na divulgação da campanha eleitoral.
Na gravação enviada em um grupo de líderes religiosos, um dos participantes afirma:
“O Gabriel, genro do David Almeida, pediu para todos nós colocar o setenta no nosso WhatsApp, Facebook e Instagram.”
O número citado seria o número eleitoral do candidato apoiado nas eleições, o que, segundo a PF, indicaria tentativa de mobilizar lideranças religiosas para ampliar a propaganda política entre fiéis.
Contato frequente com líderes da igreja

O relatório pericial também destaca a existência de interações frequentes entre Gabriel e dirigentes da igreja, especialmente com o pastor Flaviano Paes Negreiros.
Entre os elementos apontados pela investigação estão:
- Conversas iniciadas em 25 de agosto de 2024, antes do primeiro turno das eleições;
- Trocas de mensagens e áudios entre os dois;
- Fotografias em que aparecem juntos.
Uma das conversas analisadas revela que Flaviano convocou líderes religiosos para uma reunião com Gabriel em uma cafeteria na zona oeste de Manaus.
Segundo a PF, o encontro teria servido para discutir apoio eleitoral da igreja, quantidade de membros e possíveis valores ligados à influência nos votos.
Dinheiro apreendido às vésperas do segundo turno

A investigação da PF teve início após denúncias de compra de votos envolvendo a campanha do prefeito David Almeida, eleito pelo partido Avante.
A operação policial ocorreu em 26 de outubro de 2024, véspera do segundo turno das eleições municipais.
Na ocasião, uma mensagem da direção da igreja convocava pastores eleitores de Manaus para comparecer a um encontro em um minicentro de convenções localizado no bairro Monte das Oliveiras, área considerada reduto político do prefeito.
Durante a ação, os policiais encontraram envelopes contendo R$ 200 cada, totalizando R$ 21.650 em espécie.
Segundo os próprios pastores ouvidos na investigação, o dinheiro fazia parte de um montante de R$ 38 mil recebido na noite anterior de uma pessoa ligada à campanha de David Almeida. No inquérito, esse intermediário aparece identificado apenas como “Eliezer”.
Dois dirigentes da igreja foram presos em flagrante, mas acabaram liberados após pagamento de fiança de R$ 15 mil cada. Ambos seguem respondendo ao processo em liberdade.
Procurada, a Secretaria Municipal de Comunicação foi questionada sobre as informações contidas no inquérito e sobre a relação do prefeito e de seus familiares com os fatos investigados, mas não havia respondido até a última atualização desta reportagem.
A reportagem também tenta contato com as defesas de Gabriel Alexandre da Silva Lima e do pastor Flaviano Paes Negreiros.
Fonte: g1 / Rede Amazônica