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Binance é alvo de investigação por movimentações bilionárias ligadas ao Irã e à Guarda Revolucionária
Relatórios internos, documentos sigilosos e dados de blockchain apontam uso da corretora em operações para driblar sanções internacionais e financiar estruturas militares iranianas

A corretora de criptomoedas Binance voltou ao centro de uma investigação internacional após reportagem publicada pelo jornal The Wall Street Journal revelar supostas movimentações bilionárias associadas ao regime do Irã e à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).
Segundo o jornal, a apuração teve acesso a relatórios internos de compliance da empresa, documentos confidenciais, registros de blockchain e informações fornecidas por autoridades estrangeiras responsáveis por monitorar financiamento ao terrorismo.
Empresário iraniano teria operado rede para evasão de sanções
No núcleo das operações aparece o empresário iraniano Babak Zanjani, descrito pelo WSJ como um operador especializado em contornar sanções econômicas internacionais impostas ao Irã.
De acordo com os documentos analisados, uma rede controlada por Zanjani movimentou cerca de US$ 850 milhões em transações na Binance ao longo de dois anos, principalmente por meio de uma única conta de negociação.
A investigação aponta ainda que pessoas próximas ao empresário — incluindo familiares e parceiros comerciais — mantinham contas adicionais acessadas pelos mesmos dispositivos eletrônicos, o que teria levantado suspeitas internas de evasão de sanções norte-americanas.
Mesmo diante de sucessivos alertas emitidos por investigadores da própria corretora, a principal conta associada a Zanjani permaneceu ativa por pelo menos 15 meses e ainda estaria aberta em janeiro deste ano.
Fluxo financeiro teria beneficiado Guarda Revolucionária
Segundo o WSJ, os recursos faziam parte de uma estrutura bilionária de financiamento ligada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, força militar que exerce grande influência política e econômica no país e apoia grupos como Hamas, Hezbollah e houthis do Iêmen.
Especialistas em combate ao financiamento do terrorismo afirmaram ao jornal que, dos US$ 850 milhões registrados nas contas ligadas a Zanjani, cerca de US$ 425 milhões teriam efetivamente passado pela plataforma para sustentar operações militares iranianas.
Autoridades estrangeiras ouvidas pela publicação disseram que continuam monitorando movimentações envolvendo contas da Binance relacionadas a entidades iranianas sancionadas, inclusive com registros identificados neste mês.
Banco central iraniano e carteiras suspeitas aparecem em relatórios
A reportagem também cita análises realizadas por empresas especializadas em blockchain. Um dos levantamentos aponta que o banco central iraniano teria transferido aproximadamente US$ 107 milhões em criptomoedas para contas da Binance no ano passado.
Outra agência internacional de segurança identificou cerca de US$ 260 milhões em transações diretas, entre 2024 e 2025, envolvendo carteiras digitais associadas a financiadores do terrorismo iraniano e contas ligadas à corretora.
Além disso, investigadores internos da Binance teriam detectado que uma carteira digital desconhecida recebeu recursos por meio da plataforma e posteriormente encaminhou US$ 218 milhões a uma rede estatal iraniana de financiamento em 2023.
Em fevereiro deste ano, o próprio WSJ já havia revelado que cerca de US$ 1,7 bilhão teriam circulado pela Binance em direção à mesma estrutura iraniana.
Binance nega irregularidades
Em nota enviada ao jornal, a Binance classificou as informações como “imprecisas” e afirmou que não permitia transações envolvendo indivíduos ou carteiras digitais sancionadas no período citado.
A empresa declarou ainda que adotou “todas as medidas apropriadas” após tomar conhecimento dos casos e reforçou manter “tolerância zero para atividades ilícitas”.
Apesar disso, a corretora não detalhou quais informações considerava incorretas nem respondeu de forma específica sobre os valores movimentados.
A Binance também afirmou que reformulou seu programa de compliance desde 2024 para reduzir a exposição a entidades sancionadas e regiões consideradas de alto risco.
Empresa já admitiu violações nos Estados Unidos
O caso reacende pressões sobre a Binance após a empresa admitir culpa, em 2023, por violações das leis norte-americanas de combate à lavagem de dinheiro e sanções econômicas. Na ocasião, a corretora concordou em pagar multa recorde de US$ 4,3 bilhões.
O fundador da plataforma, Changpeng Zhao, conhecido como CZ, declarou-se culpado naquele processo e cumpriu quatro meses de prisão por violações das regras antilavagem.
Segundo o WSJ, Zhao teria recebido perdão do presidente Donald Trump em outubro do ano passado.
Tesouro dos EUA monitora operações
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos investiga atualmente o uso da Binance em operações destinadas a driblar sanções contra o Irã.
Em março, autoridades do Departamento do Tesouro norte-americano se reuniram com executivos da empresa e demonstraram preocupação com o cumprimento das exigências estabelecidas no acordo judicial firmado em 2023.
Na semana passada, o Tesouro dos EUA informou ter congelado US$ 344 milhões em criptomoedas ligadas ao Irã e alertou que a Guarda Revolucionária vinha explorando fragilidades nos controles de corretoras de ativos digitais para financiar suas atividades.
Stablecoin própria e operações em Dubai e Londres
Os documentos analisados pelo WSJ também apontam que a empresa de Zanjani, a Zedcex, ampliou operações na Binance em 2024. Registrada em Londres e com subsidiária em Dubai, a companhia teria utilizado contas corporativas na plataforma para movimentar recursos ligados à Guarda Revolucionária.
Segundo a investigação, a Zedcex criou ainda uma stablecoin própria, chamada USDZ, utilizada para transferências financeiras fora do sistema bancário tradicional.
Relatórios internos da Binance mostraram que sistemas de monitoramento identificaram acessos às contas da empresa a partir de Teerã no fim de 2024, gerando alertas automáticos. Ainda assim, as contas permaneceram ativas por mais de um ano.
Em resposta às acusações, um porta-voz de Zanjani negou irregularidades e afirmou que o empresário “não precisou nem dependeu de nenhuma corretora de criptomoedas para lavagem de dinheiro ou evasão de sanções”.