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Garantido por toda a vida: uma noite de espetáculo com nostalgia e superação

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Apostando na nostalgia e em um começo poderoso, o Boi-Bumbá Garantido apresentou na noite desta sexta-feira (30) o espetáculo “A vida depende da vida”, a primeira parte do show “Garantido Por Toda a Vida”. Recorrendo a alguns de seus maiores sucessos desta e de outras décadas, o bumbá entrou na arena com grande impacto, mostrando que faria uma apresentação muito melhor do que no ano anterior, apesar de enfrentar alguns problemas que podem resultar na perda de alguns pontos, incluindo o estouro do tempo.

Começando com versos de João Paulo Faria, o amo convidou o público para mais uma noite de espetáculo na ilha da magia. Foi ele quem trouxe para a arena o apresentador Israel Paulain, que chegou acompanhado por duas costureiras e pelo próprio boi-bumbá, seguidos pelos demais trabalhadores que tornam realidade as alegorias encarnadas.

Sebastião Junior, em uma versão quase xamânica, carregava um bebê predestinado, cujo nome só seria definido anos depois. Ele narrou a história de um homem indígena que lutava pelo seu povo e recebeu o nome de Raoni, o guerreiro onça, que ganhou traços joviais e furiosos na interpretação trazida à arena pelo pajé Adriano Paketá, que apareceu com um bastão digno de uma obra de ficção científica.

Sempre dominando e cativando o público que o assistia, o pajé do Garantido mostrou ao mundo o peso narrativo e simbólico de “Nominação Kaiapó”, que contou com a esperada participação daquele que inspirou a obra, Raoni Metuktire, em uma breve, mas importante, aparição. A colossal alegoria apresentada na arena, representando a vida do indígena, com sete módulos, acabou enfrentando um problema e demorou para entrar em cena, mas foi concluída a tempo do ritual.

Pouco tempo depois da primeira alegoria, entrou em cena outro aspecto da “vida” trazido pelo Boi da Coração: a concepção da própria vida, simbolizada por um ventre. Isso foi o sinal para a entrada da cunhã-poranga Isabelle Nogueira, que mostrou a força das amazonas das margens de Nhamundá, desde a encenação do ato sexual junto com Sebastião Junior – em uma celebração do desejo feminino – até o confronto com os colonizadores, como Francisco Orellana.

Claramente mais à vontade em seu papel, a cunhã-poranga teve espaço para mostrar a importância e a força da vida feminina. Talvez o destaque feminino da noite, principalmente pelas alegorias em que apareceu, a Cunhã voltou à arena no topo de uma colossal alegoria, interpretando a primeira mulher criada por Wasiry (filho deus Monã), com quem se uniu, consolidando a “Gênese Maraguá” (representada na alegoria). Nessa segunda entrada, a artista teve um problema com sua indumentária quase no final de sua apresentação, deixando parte de seus seios à mostra.

Outro ponto alto da apresentação foi Demerson D’alvaro, vindo do Rio de Janeiro para dar vida ao curandeiro protagonista do ato “Curandeiros da Amazônia”, com destaque também para a alegoria que retratava os diversos “médicos” existentes na Amazônia.

Edilene Tavares, a rainha do folclore, entrou na arena durante o ato “Aquarela da Amazônia”, em uma referência à harmonia com a mãe terra, tudo refletido em uma alegoria que mostrava uma mulher se transformando em uma espécie de flor. Além dela, outra que teve bastante destaque dentro do espetáculo foi a porta-estandarte Lívia Christina, que entrou em cena durante o ato “Clamor da Terra”, um dos últimos a entrar na arena.

Quem teve pouco tempo para se apresentar foi Valentina Coimbra, a sinhazinha da fazenda, que entrou em cena nos últimos cinco minutos da apresentação e teve pouco para mostrar, concluindo aparentemente de forma rápida e confusa a apresentação do bumbá.

Também com pouco tempo de apresentação, mas deixando sua mensagem, esteve o amo do boi, João Paulo Faria, que aproveitou suas raras aparições no show para falar sobre a superação do bumbá e questionar provocativamente a origem do Boi-Bumbá Caprichoso. Destaque para os versos em que chamou o Touro-Negro de “Gitinho” e seus torcedores de “mauricinhos”.

Por fim, em uma apresentação correta – para dizer o mínimo – de Sebastião Junior (especialmente no início) e do sempre entusiasmado Israel Paulain, o Bumbá mostrou que há vida no Garantido e se saiu melhor do que no festival passado.

Foto: Junio Matos