Mundo
Finlândia anuncia fim do financiamento à agência da ONU em meio a suspeitas de vínculos com o Hamas
Decisão coloca o país ao lado de Estados Unidos e Suécia, que também reduziram ou encerraram o apoio à agência da ONU responsável pela assistência aos refugiados palestinos

A Finlândia decidiu encerrar, ao final de 2026, o financiamento destinado à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), em meio às crescentes controvérsias sobre supostos vínculos de funcionários da organização com o Hamas e sobre a participação de integrantes da agência nos ataques de 7 de outubro de 2023 contra Israel.
O Ministério das Relações Exteriores da Finlândia confirmou que o acordo atualmente em vigor será concluído após o repasse previsto para este ano. O governo finlandês ainda não informou qual organização ou estrutura internacional deverá receber, posteriormente, os recursos destinados à assistência humanitária na região.
A decisão ocorre enquanto a UNRWA enfrenta investigações e acusações relacionadas à atuação de funcionários em organizações ligadas ao Hamas. Investigações mencionadas pela reportagem, conduzidas pelo Escritório do Inspetor-Geral da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID OIG) e pela organização UN Watch, apontam suspeitas envolvendo integrantes da agência.
Estados Unidos e Suécia também deixaram de financiar a agência
A Finlândia passa a integrar o grupo de países que interromperam ou redirecionaram recursos destinados à UNRWA.
Os Estados Unidos suspenderam completamente os repasses à agência em fevereiro de 2025, durante o governo de Donald Trump. A Suécia, por sua vez, encerrou seu financiamento em dezembro de 2024 e decidiu direcionar a assistência humanitária para outras estruturas das Nações Unidas que atuam na região.
O acordo plurianual entre Finlândia e UNRWA, válido de 2023 a 2026, representa aproximadamente US$ 23,23 milhões. O compromisso será encerrado após o pagamento previsto para este ano.
As autoridades finlandesas não detalharam publicamente as razões específicas que levaram à mudança na política de financiamento.
Investigações levantam suspeitas sobre funcionários
Segundo informações citadas na reportagem, a investigação do USAID OIG envolve cerca de 1,5 mil integrantes da UNRWA suspeitos de possível participação em atividades terroristas. Desse grupo, 108 funcionários teriam sido encaminhados ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, com recomendação para suspensão ou impedimento de futuras atividades em organizações financiadas pelo governo norte-americano.
A UN Watch também apresentou acusações contra a agência. De acordo com um relatório da organização, aproximadamente 12% dos funcionários da UNRWA em Gaza teriam vínculos com organizações consideradas terroristas. A entidade afirma ter chegado a essa estimativa por meio do cruzamento de listas de empregados da agência com registros atribuídos ao Hamas e obtidos pelas Forças de Defesa de Israel.
As alegações, contudo, devem ser atribuídas às organizações responsáveis pelas investigações e não equivalem, por si só, à comprovação independente de que todos os funcionários mencionados tenham participado de atividades terroristas.
Debate sobre a distribuição de ajuda em Gaza
A controvérsia ocorre em um momento em que governos e organizações internacionais discutem alternativas para a distribuição de assistência humanitária à população de Gaza.
Representantes ligados aos esforços de reconstrução apoiados pelo governo Trump defendem que organizações consideradas confiáveis sejam responsáveis pela entrega de ajuda, dentro de uma proposta que prevê uma Gaza desmilitarizada e sem radicalização.
A possibilidade de substituir a UNRWA também ganhou espaço nas discussões relacionadas ao chamado Conselho da Paz, iniciativa apoiada por Trump para tratar de questões relacionadas à reconstrução e ao futuro do território após o conflito.
Hillel Neuer, diretor-executivo da UN Watch, defendeu que os recursos destinados aos palestinos sejam transferidos para organizações humanitárias que, segundo ele, sejam independentes do Hamas. Entre os exemplos citados está o Programa Mundial de Alimentos.
Neuer também afirmou que outros países deveriam seguir os passos dos Estados Unidos, Suécia e Finlândia. Na avaliação dele, a assistência humanitária poderia ser mantida por estruturas alternativas à UNRWA.
ONU defende continuidade da UNRWA
A Organização das Nações Unidas, por outro lado, mantém o apoio à agência.
Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização tomou conhecimento da decisão finlandesa e agradeceu pelos recursos previstos no acordo firmado para o período de 2023 a 2026.
Segundo Dujarric, Guterres continua incentivando os países-membros da ONU a apoiar o trabalho da UNRWA. O porta-voz também afirmou que a agência pretende continuar dialogando com o governo finlandês.
A UNRWA não apresentou, até o momento citado na reportagem, uma resposta detalhada às questões relacionadas à decisão da Finlândia.
Futuro da agência permanece em discussão
A suspensão do financiamento por diferentes países aumenta a pressão sobre o futuro da UNRWA, que há décadas desempenha um papel central na prestação de serviços e assistência aos refugiados palestinos.
Enquanto críticos defendem que a agência seja substituída por outras organizações, seus apoiadores sustentam a continuidade de sua atuação humanitária.
O debate ganhou ainda mais importância diante das discussões sobre a reconstrução de Gaza e sobre o modelo de administração e distribuição de ajuda que poderá ser adotado após o conflito. Nesse cenário, o principal desafio para os países envolvidos é garantir que a população civil continue recebendo assistência, independentemente das disputas políticas em torno da UNRWA.
